O número no laudo não é o seu prognóstico
A cena se repete no consultório: o paciente chega com uma radiografia, aponta para a palavra “grau 3” e pergunta quanto tempo falta para a prótese. A pergunta faz sentido — e a premissa está errada.
A classificação de Kellgren-Lawrence descreve o que a imagem mostra: redução do espaço articular, osteófitos, esclerose. Ela não mede dor, não mede força e não mede o que você consegue fazer. E a correlação entre esse grau e a intensidade da dor é fraca.
Na prática, isso significa duas coisas incômodas para quem gosta de certezas. Existem pessoas com artrose avançada na imagem que caminham quilômetros sem queixa. E existem pessoas com alterações discretas que sentem dor limitante todos os dias.
Se o grau não determina a dor, ele também não deveria determinar sozinho a indicação cirúrgica. Quem decide é a função, e a função é modificável.
O que realmente determina o prejuízo funcional
Três fatores explicam melhor a limitação do que a imagem:
- Força de quadríceps. É o amortecedor da articulação. Déficit de força aumenta a carga que passa pela cartilagem a cada passo.
- Grau de inflamação. Sinovite e derrame produzem dor desproporcional ao desgaste estrutural — e são tratáveis.
- Capacidade aeróbica e peso corporal. Cada quilo a menos reduz várias vezes esse valor em carga articular durante a marcha.
Nenhum dos três aparece na radiografia. Todos os três respondem a tratamento.
O que a evidência sustenta
Primeira linha — evidência alta
Exercício terapêutico dosado é recomendado como primeira linha por praticamente todas as diretrizes internacionais — OARSI, ACR e NICE. Não é complemento da medicação: é o tratamento principal, com efeito sobre dor e função comparável ao de anti-inflamatórios, sem os riscos gastrointestinais, renais e cardiovasculares do uso prolongado.
Redução de peso associada a exercício produz melhora clinicamente significativa, superior à de qualquer uma das duas isoladamente.
Segunda linha — seletiva
Infiltração com corticoide alivia dor por semanas, com evidência consistente de curto prazo. O ponto de atenção é a repetição: aplicações trimestrais por períodos prolongados foram associadas a perda de cartilagem em estudo controlado. Usada com indicação e espaçamento, ela abre janela para o exercício acontecer. Usada de rotina, vira muleta.
Viscossuplementação pode ser opção em casos selecionados, com efeito sobre o sintoma e resposta que varia entre pessoas.
O que a evidência não sustenta
Artroscopia de “limpeza” em artrose sem bloqueio mecânico não mostrou benefício sobre tratamento conservador em ensaios randomizados. Suplementos orais têm evidência fraca e inconsistente. E nenhuma terapia disponível hoje regenera cartilagem de forma difusa — desconfie de quem promete isso.
Então quando a prótese entra?
Quando dor e limitação persistem apesar de tratamento conservador adequado — e a palavra que carrega o peso aqui é “adequado”. Um programa de exercício feito por seis semanas sem progressão de carga não é tratamento adequado. Três infiltrações em dois anos, sem nenhum trabalho de força, também não.
Quando a indicação existe de fato, a artroplastia é uma das intervenções com melhor relação custo-efetividade da medicina moderna, com sobrevida do implante superior a 90% em 10 anos.
Adiar indefinidamente uma prótese indicada também custa caro: perda de massa muscular, deformação progressiva e pior recuperação depois. Preservar não é sinônimo de adiar.
O Método R3™ existe para organizar essa decisão: três pilares simultâneos, avaliação multimodal e um critério claro para reconhecer quando o conservador deixou de ser suficiente.
Referências de suporte: OARSI (2019), ACR/AF (2019), NICE NG226 (2022); registros nacionais de artroplastia. Conteúdo educativo, sem substituir avaliação individual.